Toda a vida.

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Toda a vida vivi na lonjura.
A distância das evidências é um imperativo d’alma.

Habitar o Tempo com a Liberdade
de não possuir nem Tempo nem Liberdade
é como se fosse o grão sem a terra
mas com a nítida ideia dos campos lavrados,

é como se desse a Deus
essa infinita possibilidade de criar aos Homens
a impressão magnífica de ter havido mundo
apesar da nossa finitude, apesar das dores,
apesar da felicidade gravada
na terra imperturbável do Tempo dos outros,
a rebentar em nós como rebenta no outono
a despedida das árvores
ou da sua estival ostentação.

Toda a vida vivi na lonjura.
Toda a vida até ser dela a sua ideia,
o seu corpo infinito.

A despedida.

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Poderemos brindar com vinho fino a dias melhores. Poderemos ser uma espécie de calendário de loucuras e de utopias. Poderemos não terminar as frases por sabermos ambos o mesmo sobre o futuro do mundo. Poderemos até pensar que esse estranho mundo somos nós. E na verdade, há uma fronteira que o mundo tem que é a nossa e que se vai erguendo nos outros, sendo muitas vezes o único utensílio para que se possa ver de um mundo para o outro, de uma para outra distância.
Poderemos brindar ao amor que deixámos. Poderemos ser esse amor sem que o saibamos. De certeza que morreremos. De certeza que partiremos e que atrás de nós virá um Deus sorrindo, apanhando na estrada os restos todos.
Deles, da sua junção num coração perfeito, construirá a barca que o fará partir com a melhor memória por um dia ter cometido a loucura de criar a coisa Humana e na mais livre das culpas a ter feito à sua imagem e semelhança. Daí o sorriso, daí a partida solitária e universal desse Deus sobre a barca de todos os nossos restos, ao encontro de si, sendo ambos a viagem e o viajante, o meio e a vontade, o medo e o caminho.
Sendo ambos a unicidade de que nos falaram em pequenos quando nos disseram que deveríamos amar Deus acima de todas as coisas e os outros como a nós mesmos, mas só depois, mas muito abaixo de todas as coisas.
Brindemos, pois por não sermos os mesmos e no outro conhecermos o mais genuíno corpo de Deus e Ele no nosso, nos nossos restos construir a viagem, a grande e desconhecida viagem, o grande mistério, a maior beleza que é um Deus a despedir-se após a criação.

O amarelo outonal das Ginkgo.

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Passeio de domingo com a família a ver o outono em Fafe no seu esplendor.
As tonalidades vermelhas, amarelas e castanhas das nossas árvores são magníficas e durarão pouco tempo mais. Nas primeiras semanas de Dezembro já se não vêem.
Este ano, a grande surpresa foi o magnífico amarelo das Ginkgo Biloba que estão na avenida das Forças Armadas. Há cidades com outonos magníficos. Fafe é uma delas. Talvez poucos o sintam assim. Mas valerá a pena experimentar.
A propósito do amarelo das Ginkgo Biloba da Av das Forças Armadas, lembro-me que Goethe chegou a ter uma e a escrever sobre ela. As Ginko são um fóssil vivo por existirem desde a pré-história e no oriente têm um significado sagrado, normalmente plantadas junto aos templos, sobretudo depois de terem sobrevivido aos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki.
É fascinante ter o oriente aqui tão perto, numa avenida que para mim muito simboliza a Liberdade e a poética dos dias.

Tem a lonjura a síntese perfeita nas finas folhas
em leque das nossas Ginkgo.
Trazem a brisa do oriente, o seu vento aveludado
e o deslizar das pequenas barcas por rios serenos.
A avenida das Ginkgo
a fugir pelo mundo e a sussurrar à imanência dos dias
a possibilidade tão humana de partir até onde nos leva
os sonhos que ainda não temos, em chãos
que só nos pertencem por nos pertencerem a Liberdade
e a desregra do coração.

O círculo.

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Amar o círculo, a surpresa das voltas, o não reconhecimento do ponto de chegada ser o mesmo da partida, só que a dizer adeus e a ir como se fosse sempre a vez primordial e única.
Amar o Tempo sem que saibamos que parte dele nos pertence. Ser o ser inacabado e pronto, a voz de rasto que se impõe ao único corpo que não morre: o da memória repartida.
Deixar que a noite anoiteça sobre os nossos olhos e sobre o natural cansaço de ver o avesso de todos os sonhos.
Deixar. Partir. Ser o círculo, o pacto de nascença. A parte do universo que nos faz universais.

Pretérito perfeito.

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Um dia, teremos sentido a falta dos poentes
onde deixámos de pertencer,
por terem sido nossos alguma vez,

na vez improvável que o coração
escolheu para sentir saudade.

Um dia, teremos o rosto
de todas as vezes em que nos despedimos
do que ficou para sempre em nós.

Um dia, seremos uma e outra coisa,
o passado e o futuro
e só na vez presente
conheceremos todas as dores e aflições
que sente aquele que desconhece

e nesse desconhecimento se perde de alegria
e da certeza de que não morrerá
enquanto durar esse estado não vivido,
essa infinita fortuna de não ser.

O Tempo e o mundo.

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Para Laura Santos, pela Palavra.
Com o abraço de sempre.

Pode o mundo ser a face impossível
das coisas que partem e nos deixam
sem a palavra precisa do desprendimento.

Pode o rosto que não vemos ser uma espécie de neblina
e sermos nós , no seu meio, o passeio purificador na madrugada
que tapa e destapa o que lembramos de outros rostos
e de nós mesmos ai demorados na digna forma que inventámos
para que, assim que clareasse,
pudéssemos ser uma coisa mais sobre o Tempo
em suas fundas desregras e liberdades.

Pode o mundo ser o dia
onde ainda não passámos e onde porventura
nunca passaremos.

Mas, uma coisa é certa:

pode esse dia, nesse mundo, ir sem nós
que, em seu fundo mistério, o atarvessaremos
por tê-lo atravessado já num peito maior
do que o nosso, numa fronteira maior do que a nossa,
numa margem onde só nos imaginamos
naquilo que amámos nos outros,

o que segue sem que lhe conheçamos Tempo
ou a improvável distância,
o tão belo e quieto silêncio do mundo
onde se não morre,
sendo esse, talvez,
o único e indivisível corpo que os Homens
alguma vez criaram para Deus.

Sobreviventes.

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Na verdade, o dia de finados não é muito fluído em mim. De certa forma incomóda-me esta data por admitir que possa haver outras pessoas que por ela esperam para se relacionarem com os seus mortos mais de perto, traduzindo que, efetivamente, esses finados quase morreram para sempre, não fora o dia.
Felizmente que me relaciono diariamente com os meus. Cá em casa temos sobreviventes. O grau de sobrevivência vai até ao meu bisavô que não conheci mas que cresci com os seus exemplos e as suas histórias de vida. A avó Arminda, que morreu quando o meu pai tinha 10 anos, continua a ser uma figura central naquilo que o amor maternal e a coragem perante a morte conseguem. Depois, os que partilharam os dias efetivos connosco e que já não estão nos dias comuns são todos lembrados, a todo tempo, e interferem nas nossas decisões, nos nossos gestos e nos nossos afetos. Sobreviventes, portanto.
Hoje, como sempre, fomos ao cemitério. Está lá muito pouco. Está o sítio onde nos queremos recolher um dia. E isso dá-lhe suficiente importância. É uma espécie de chão que é só dos nossos. Sempre tive com a minha campa uma relação de grande intimidade. Avisei todos que faço questão de ficar ali um dia, porque pertenço ali.
Mas, esse gosto e esse interesse muito pouco se relaciona com os que lá estão depositados. Esses, antes de ali estarem estão há muito depositados em mim, em nós, nesta nossa família que continua a vida ao seu lado, sendo esse um magnífico privilégio que se cruza entre o amor e a fé, que se cruza entre o que regime algum pode roubar, por muito pouco deste tempo que possa ser, e a nossa capacidade de resistir, de fazer sobreviver os que nunca deixaram de pertencer a um corpo maior do que o nosso e que continuamos a construir dia após dia, o corpo do amor.

Perguntas.

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Há uma pergunta que diz muito sobre a nossa liberdade. Quem tem o privilégio de perguntar a si mesmo:
o que vou fazer hoje?
é alguém que está na contingência de decidir sobre o seu dia de forma plena. O nosso tempo vai-nos dando esta possibilidade em curtos períodos de férias e, mesmo nesses, há resquícios dos outros que surgem e nos perguntam e interferem numa distância que se deseja mas se não alcança.
A obsessiva agenda dos dias modernos está a afastar-nos da possibilidade de estarmos connosco e de decidir fluidamente sobre que outros e que circunstâncias pretendemos para esse dia da nossa vida que se não repete: o dia de hoje.
O cidadão moderno, na generalidade, vive neste frenesim que enjaula o tempo num sistema de suposta eficiência, deixando a essência do ser e o seu culto para uma longínqua prateleira de pausas ou para um incerto período de fim de vida que ninguém sabe se o sentirá assim tão longínquo.
Outra pergunta poderá dizer muito sobre a nossa liberdade:
então corres para quê?
Se a resposta te fizer sorrir, então talvez tenhas respondido à primeira questão de modo livre: o que vou fazer hoje?

Nós próprios os outros.

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Apanha um comboio.

Deixa que a cidade
fique estanque no ponto exato onde decidiste partir.
Deixa-te morrer aí
para descobrires como nascerás noutro lugar

e daí ressuscites a saudade do que já não és,
embora o sejas para sempre,
pois só se existe naquilo que se quer,
pois só se existe no que sabemos de nós
e no que longamente nos imaginamos nos outros.

A terra.

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A terra é uma extensa frase.
Sobre ela nos demoramos e vamos morrendo
num silabar lento, abandonando a solidão mais bela,
entregando o tempo, recolhendo dos frutos
o seu verão, das folhas a sua outonal queda,
da vida a sua impressiva imagem no corpo das ruas,
de Deus a sua única existência no coração
que lhe descobrimos ao abrirmos o nosso.

A terra é uma extensa frase,
contada ao mais tumultuoso lado
do que a infância roubou ao desperdício
adulto dos sonhos e dos acabados gestos
para se ser feliz, alguma vez.

Entre Zagreb e a Vila.

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Esta manhã, veio-me à lembrança uma outra manhã em que decidi visitar a feira de Zagreb. Fui só e, curiosamente, reencontrei-me com o miúdo que fui na pacata Vila. Demoramo-nos ambos a ver os objetos da infância daquele lugar, tão próximos dos nossos do norte de Portugal.
Naqueles instantes o mundo ficou pequeno e próximo. Como poderiam os meninos do frio e longínquo leste europeu terem nas mãos e na memória formas e cores tão próximas das nossas? Como está perto o riso e a ousadia humana! Pensei.
Nessa manhã de Zagreb, muito longe da minha tão tatuada Vila, fiz-lhe um aceno com o olhar e disse para mim mesmo: nunca nos havemos de separar.
Esta manhã em Fafe, pude trazer esse aceno á memória e ter saudades boas do tempo em que me levantava cedo e passeava por Zagreb, mas sobretudo do tempo em que era muito pequeno e aqui na rua era o miúdo que passava à tarde pela casa da Luisinha Neto, sentava-me num banco pequeno em madeira, parecido com aqueles que também ali se vendem, e esperava que ela me oferecesse aparas de hóstias em troca do seu transporte para a Igreja nova de Sao José.
Era inverno, a Luisinha entregava-nos as aparas e um aconchego de difícil narração. A ternura que nos dava era muito parecida com a forma do nosso pequeno corpo sentado no pequeno banco em madeira. Era de uma intimidade sem grandes frases, mas suficientes para que as sinta ainda hoje e não dispense nada, nem a sua forma de sorrir, de dar ou de nos proporcionar a grande missão de levar as hóstias à igreja, num gesto de confiança invulgar. Éramos muito grandes quando o fazíamos.
A Luisinha tornou-se imortal em mim. Ainda hoje aconchega com o seu sorriso, o seu gesto e as tardes de inverno a minha melhor solidão. E dessas hóstias, não tenho dúvida alguma, eram verdadeiramente o corpo de Cristo.

Fafe Film Fest

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Foto de Manuel Meira

Almocei com António da Cunha Telles uma vitela assada à moda de Fafe. O convite veio do Cineclube de Fafe que decidiu, e bem, homenagear esta que é uma das figuras maiores da história do cinema em Portugal. Na mesa, além do João Pinto que nos juntou a todos, estavam os realizadores Vicente Alves do Ó e Jorge Campos assim como Anna Paula Ormeche da Comissão Nacional da UNESCO e os convictos lutadores pela divulgação de cinema de qualidade em Fafe: os cineclubistas fafenses que deram tudo por mais um Fafe Film Fest.
Sentado entre eles, tive uma sólida alegria. Fafe tinha atraído o melhor que o cinema nacional tem e os nossos persistentes cineclubistas tiveram o abraço, a colaboração e o apoio destes. Gesto bonito de todos, dos que sabem agradecer aos artistas pelo que dão ao património nacional com as suas obras; gesto bonito o dos artistas ao estarem presentes e por, na sua presença, dizerem um nunca desistam porque o futuro precisa de vós.
Enquanto fafense tive uns dias felizes porque aqui se juntou parte daquilo e daqueles que será a história dos dias do cinema do nosso tempo e do nosso país. Tiraram-se fotos durante o almoço, durante as sessões e durante os passeios pela cidade. Um dia, estas serão as fotos da história do nosso cinema. E Fafe estará presente. Não é vaidade, nem bairrismo. É fazer parte do curso certo da história.
Quando lemos livros e vemos documentários sobre encontros entre os grandes de uma determinada arte, são sempre imagens distantes de grandes metrópoles. Hoje, como de outras vezes, foi entre nós. E isso sabe muito bem porque não desistimos, porque o caminho é duro mas é o caminho certo, porque é o nosso, o que queremos seguir.

Geografias.

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Apanhava o comboio na Gare du Nord e seguia,ao final da tarde, até Bruges. Levava na mente os pintores flamengos e umas canções dos anos 30. Ficava com uma quieta sensação de me querer demorar na distância. A distância é um corpo magnífico onde se deve trabalhar a ciência de ser outro para se ser alguém. Ser outro. Sê-lo ao sabor da liberdade e do espanto. Quando perdemos o espanto começamos a morrer.
Apanhava o comboio e seguia a paisagem interior da carruagem e a fugidia do lado de fora. Quando chegava, atravessava as ruas junto aos canais, aproveitando as moradas todas do frio, e guardava uma a uma a legenda do silêncio daquele lugar.
Hoje, tenho essa paisagem como uma das minhas fortunas. Guardá-la na mente não é saudosismo, é saber que cada ser humano é sempre muito maior do que aquilo que aparenta a sua dimensão ou geografia, assim o não deixe escapar, assim não passe pela vida em vão.

O espelho da alma.

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Poderás ser a ditosa pátria de outrora. Ouvir todas as vozes e sentires-te a pessoa certa, rodeada por gente que te pode amar sem perguntas. Poderás ser essa criança que o universo carrega, sem lhe sentir o peso das perguntas futuras, dos desalentos que viriam, das angústias que se mantiveram e até de uma cólera muito tua que sempre volta.
Só se sente a cólera depois de se conhecer o amor, não é? E só se sente um país depois da lonjura, como só se sente o desejo depois da secura das horas. A liberdade é uma estranha forma que atravessa esses dois mundos e te não deixa morrer em nenhum deles.
Talvez envelheças, é certo. Mas não morrerás porque enquanto houver liberdade, por mais triste que andes, será ela que te demonstrará essa tristeza, por tudo aquilo que já te deu e te há-de devolver do imperceptível território da alegria. A alegria que foi sempre tua, mesmo quando não veio e dela muito pouco sabias., embora continuasses como se fosses vivo em todas as tuas mortes.

Retrato.

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Seremos um retrato onde os olhares pousam, uns livres, outros não. Seremos isso, um corpo pintado na ideia dos outros, um toque na imaginação da criação alheia. Esse retrato é a pluridimensionalidade da alma. Uma infinita paisagem, uma imparável história, uma corrente de ar sobre o eterno desconhecimento do universo.
Deus estará nesse magnífico fosso de desconhecimento. Inventá-Lo é prová-Lo e ser Dele a parte essencial e até verdadeira.

Pátria interior.

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A quanto tempo terás o coração que se ausenta?
A que odor de coisa ida regressarás
na quieta impressão de seres o que sobrou
da ideia alheia de mundo?

Que tamanho terão as ruas por onde nunca foste,
tendo nelas sido o desejo inteiro, a perfeita fuga?

Que geometria terá o gesto e o beijo,
a música e a despedida? Que pátria perfeita te falta
para seres os teus impossíveis e esqueceres-te do tempo?

A propósito das pontes.

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Soube que tínhamos três das mais belas pontes do mundo, segundo uma publicação turística sobre os melhores destinos à escala universal.
Toda a minha vida morei sobre pontes e guardei de todas elas um íntimo fascínio. Escrevo o verbo morar, pois as pontes são sempre lugares de mudança e de encontro e poucas coisas serão melhores numa vida do que a mudança permanente e o surpreendente encontro.
Mudar de margem, conhecer a outra margem,, olhar para trás e entender a lonjura. Parar no meio da ponte, ter a liberdade de não saber o que fazer e ser esse tolo muito livre que encontrará o seu tempo para fazer a escolha e seguir. Estar na ponte e sentir a brisa e o correr dos rios, saber que pouco mais somos do que esse gesto profundo que uma ponte é, se descoberta.
Toda a vida morei na ideia de ponte. Toda a vida fui um viajante e, por isso, esta noite, a minha única oração é esta: que Deus me ajude a nunca deixar de o ser

Recolhimentos.

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Tarde de domingo. Recolhemos as palhas da pérgola do terraço e os suportes de vime dos vasos, colocámos o azevinho no canto mais exposto ao sol e assim arrumámos o verão inteiro.
Tenho na memória um tempo de outono em que era miúdo e começava uma longa caminhada para o interior da casa, para os recantos íntimos das casas dos amigos, para os meus interiores. Descobri muito cedo o ritmo do recolhimento.
Um dia recolhi-me tanto que queria ter a certeza de que Deus existia para além do que testemunhava a soberba de alguma igreja e a ternura de uma ou outra catequista. Andei anos para sair crente desse recolhimento. Mas saí. E quando saí entrei noutro e noutro recolhimento, ao ponto de ser esse um espaço de intenso e maravilhoso silêncio, onde a liberdade coroa um sentimento de paz que me mantém a fé na cadência do mundo.
Esta tarde, andei pela casa e inaugurei um outono à procura do que será a quietude dos novos outonos, ou dessa face tão surpreendente que é a face de Deus a espelhar-se naquilo que a nossa própria face ainda não é.
Um dia perceberemos todos os tempos e todas as distâncias, bem como aquilo que foi a síntese desses tempos e desses lugares a marcarem a nossa única vez pelo mundo. Um dia, talvez sejamos a face surpreendida de Deus, sendo essa a paisagem máxima que pode aspirar a condição humana, feita à imagem e semelhança do seu Criador.

O amor.

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E, quando as histórias de amor são histórias extremas da existência, temos a confortável certeza de que o caminho acaba por se justificar, porque muito pouco importa além do amor que sentimos pelos outros, pela vida, pelo mundo, mas também pelo que compreendemos e pelo que nos custa compreender.
As histórias de amor têm sido muito mal tratadas. Ou as limitam a pastosas ligações a dois ou a paixões irreflectidas e prisioneiras dos umbigos apaixonados, como se elas mesmas justificassem a tontice generalizada dos que se apaixonam por si mesmos e pela sua inquebrantável, porém falsa, luminosidade.
Da outra margem, as histórias de amor são remetidas ao ópio da alienação coletiva a que extremadores de posições doídas acusam os demais, como se fosse o amor o sentimento que tolhe e ofusca a clareza humana.
O que penso sobre as histórias de amor é que elas são histórias extremas da existência, primeiro porque se não circunscrevem à sexualidade ou a questões de género, mas antes à capacidade de entrega de cada um na esfera do outro particularizado e universal.
Há uma urgência do amor, porque o amor é um sentimento complexo e não imediato. Esta tarde, faz-me falto o António Ramos Rosa, a sua infinita forma de escrever o amor maior. Há um amor com maioridade que, por não ser frequente. assiste frequentemente à morte do mundo.
Sinto que o amor é um sentimento revolucionário porque o que faz falta é amar a malta. E porque amar a malta é dedicar ao amor e à malta o melhor que a nossa inteligência possa oferecer aos dias comuns. Aos dias comuns senhores!

Latências

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Há dias em que nos apercebemos que tudo tem uma latência de partida. Não voltaste a fechar devagar o portão do jardim, não voltamos a estar juntos no inverno, eu na cama de cobertores pesados e tu sentada ao meu lado a contar-me continhos, não para que eu adormecesse mas porque gostavas de contar-me continhos e que eu ficasse contente a ouvi-los. Não voltamos a esmagar as batatas cozidas, a desfiar o bacalhau e a fazer quadrados para ser mais fácil comer e enganar a minha antipatia infantil por cozido de bacalhau. Hoje, procuro um azeite que me saiba a esse tempo e que, na medida do possível, me devolva o que passou de um suportável cozido de bacalhau para um enternecedor conforto para o espírito.
Hoje. Hoje é uma palavra muito estranha, com a qual mantenho uma certa má relação. Sempre preferi as coisas com rasto, com ruínas ou as coisas com futuro, inexistentemente exiistentes em nós. E na dança dos tempos, ainda me pica na cara o teu casaco lilás em lã virgem onde pousava o rosto quando me trazias ao colo pela rua do teatro até casa. E na manhã do mundo, querida avó, nunca soltamos as mãos um do outro, pois nunca termina o passeio que damos por esta paisagem fantástica que é o continuado estado de vivência.
Não sei ao certo se nos voltaremos a encontrar. Esse assunto faz parte da intimidade dos céus e é portanto algo onde não costumo mexer. Esta manhã, vamos assim, um ao lado do outro, como sempre. Já não é mau. Isso dos céus não é connosco. Façamos o dia juntos e pronto. E na latência de partida que as coisas têm, uma coisa é certa, há uma das suas margens que é muito bela. A que vivemos.